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Faleceu Richard Guy

2020-03-09 · última modificação 2020-03-10 17:42
Com 103 anos, faleceu hoje o matemático Richard Guy, sócio honorário da Associação Ludus. Guy participou em várias actividades organizadas em Portugal, nomeadamente nos Recreational Mathematics Colloquia. A Ludus associa-se à dor dos familiares, amigos e colegas.

 

Richard K Guy 2005.jpg

 

 

 

Richard opened the 1st Recreational Mathematics Colloquium, in Évora (2009)
Évora 2009
With Louise, Richard's wife (Évora 2009)
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Tributo pessoal de Carlos Pereira dos Santos:

 

Embora tenha de começar este texto por mencionar o facto de Richard Kenneth Guy ter sido um enorme matemático, é para mim absolutamente fundamental transmitir os seus raríssimos atributos humanos.

Ele contribuiu de forma muito relevante nas áreas de Teoria de Números, Combinatória, Geometria, Teoria de Grafos. No que me diz respeito, destaco os seus enormes contributos na Matemática Recreativa e na Teoria de Jogos Combinatórios. Juntamente com outros dois grandes matemáticos (John Conway e Elwyn Berlekamp), foi co-autor do clássico Winning Ways for your Mathematical Plays, obra seminal de Teoria de Jogos Combinatórios.

Sensivelmente em 2007, comecei a ler o Winning Ways (uma segunda edição em 4 volumes). Aí, tive a raríssima oportunidade de estudar uma nova teoria matemática a nascer, a dar os seus primeiros passos. Esses livros são carregados de uma originalidade de cortar a respiração. Os autores procuraram transmitir conceitos profundos, mais do que demonstrações rigorosas ou formalismo exacerbado. Por esse motivo, alguns matemáticos «torcem o nariz» a esta obra‑prima. Precisamente por estarem habituados a edifícios acabados, têm reticências quanto ao carácter «em bruto» da mesma. Felizmente, a grande maioria dos matemáticos percebe ou intui o incrível alcance destes livros. Richard Guy contribuiu com matemática e com alguma estética destes livros. A sua caligrafia e os seus desenhos são apanágio de pessoas de outra geração. Infelizmente, este esmero está também a morrer.

Para mim, o facto de o Winning Ways não apresentar o edifício formal a que estava habituado proporcionou um desafio. Tive de «lutar» com os livros; tive de vestir o fato macaco para agarrar o delicioso frango com as mãos. Essa luta mudou a minha atitude face à matemática, mudou a minha vida profissional e, por esse motivo, mudou a minha vida. Há um antes e depois da luta com o Winning Ways. Se a luta tiver sido justa e honesta, a pessoa muda. E, assim, Richard Guy, pessoa que eu nunca tinha visto, tinha mudado a minha vida.

Em 2009, Richard Guy veio a Portugal e abriu a nossa série Recreational Mathematics Colloquia em Évora (ainda activa). Não podíamos ter tido melhor matemático a abrir esta série de colóquios (penso que terá sido uma excelente ideia de Jorge Nuno Silva). Chegou a Portugal com a sua mulher Nancy Louise Thirian, com quem partilhou a sua vida durante muitos anos. Na boleia do aeroporto, Richard vinha discreto, Louise faladora. No final da viagem, Louise tinha aprendido cerca de 30 palavras em português (sem exagero). No primeiro impacto com aquele casal, era impossível não sentir uma atmosfera de integridade, de dignidade, de inspiração, de respeito pelas oportunidades que a vida dá. Mesmo sem falar, a presença daquele homem de baixa estatura não era uma presença qualquer. Ninguém ficava indiferente, havia a sensação de respeito pelas boas razões. Um respeito não imposto mas, ao mesmo tempo, automático e inevitável. Por outras palavras, o único respeito que interessa na vida.

Quando li o Winning Ways, soube que os seus autores teriam de ser muitíssimo sofisticados. Tive oportunidade de contactar mais de perto com Richard Guy e Elwyn Berlekamp, confirmando essa sofisticação. Uma vez, em Nova Iorque, vi uma conferência sua (Let’s Bring Back That Gee-om-met-tree!) e constatei a real grandeza da sofisticação, o “descascar” de assuntos simples, desenrolando faseadamente o novelo desde o mais simples ao mais sofisticado. Com energia, com muito humor, com enorme presença (apesar de ter cerca de 100 anos de idade!).

Em 2014 fiz uma viagem de mais de 1000 km com Richard Guy. Rumo a Kamloops, um local lindíssimo no Canadá, contactei com a faceta mais importante de Richard. A sua linguagem certeira (sempre a sensação de não haver palavras desnecessárias, de não haver palavras sem significado), mas afectuosa ao mesmo tempo. O sentido de humor inteligente sempre presente; um humor fino, não histriónico (para mim, o melhor humor é o inteligente, que faz sorrir em oposição ao humor directo, ao da descarga emocional). Os seus esquemas nos papéis, sempre impecavelmente redigidos e graficamente lindíssimos. E a sua capacidade de ouvir, à procura da oportunidade (repare-se que, nesta história, eu sou a formiga e ele o dinossauro, mas, na discussão, o dinossauro aparece com uma rara postura de igual para igual). Na conferência em Kamloops coloquei no quadro um problema de xadrez que tinha feito. A dada altura, este senhor de cerca de 100 anos, ficou de pé, focado, mais de 15 minutos, a estudar o problema. Foi o único da conferência a fazer isso. Tenho um vídeo que capturou esse momento e é agora um dos meus tesouros pessoais, que não partilho. O que está aqui em causa não é o problema, não é a matemática, não é a ideia de eu poder estar a armar-me em esperto com «o meu problema». Se ocorre isso ao leitor, afaste essa ideia. O que está aqui em causa é a postura dele. A sua mulher e companheira de sempre tinha morrido em 2010 e ele (como ela o faria), continuou à procura das oportunidades que a vida dá, com curiosidade, com foco, com o puro prazer do exercício intelectual. Partilho um problema (autoria de Richard Guy) que ele partilhou comigo nessa altura:


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As brancas jogam e ganham.


Richard fazia montanhismo; depois de a sua mulher morrer, subiu um monte pela última vez como lhe prometera. Mas, e quero frisar isto, acabou por não ser a última vez! Ainda foi lá mais de um par de vezes depois da morte da sua mulher (não esquecer os seus 100 anos de idade). Estas pessoas raríssimas tendem a não perder muito tempo com coisas inúteis e tontas, tempo que, infelizmente, quase todos nós perdemos na espuma dos dias. Em vez disso, transformam 103 anos de vida em 500 anos de vida e o mundo fica mais pobre em inspiração quando partem.

(solução do problema)

1.Rd1!

[1.h4? Ra3! 2.h5 Rb2 3.h6 a5 4.h7 a4 5.h8D a3 6.Dh5 a2 7.Db5+ Rc1 8.Da4 Rb2 9.Db4+ Rc1 10.Da3+ Rb1=]

1...Ra3! 2.Rc1 Ra2 3.h4 a5 4.h5 a4 5.h6 a3 6.h7 Ra1 7.h8C! a2 8.Cg6 fxg6 9.f7 g5 10.f8C! g4 11.Ce6 dxe6 12.d7 e5 13.d8C! e4 14.Cc6 bxc6 15.b7 c5 16.Rd1 Rb2 17.b8D+ Ra1

[17...Rxc3 18.Dh8+] 18.Da7 Rb2 19.Db6+ Ra1 20.Dxc5 Rb2 21.Db4+ Ra1 22.Da3 Rb1 23.Dc1#